Geração Kidult: por que os adultos dos anos 80 e 90 continuam ligados à infância?

Você já reparou como muitos adultos de 30, 40 ou até 50 anos continuam jogando videogame, comprando bonecos colecionáveis, assistindo desenhos animados, consumindo guloseimas e cultivando hobbies que gerações anteriores costumavam abandonar ao entrar na vida adulta?

Enquanto nossos avós frequentemente associavam maturidade ao abandono das brincadeiras e dos interesses infantis, as gerações nascidas nos anos 80 e 90 parecem ter seguido um caminho diferente. Hoje, é comum encontrar executivos colecionando action figures, pais e mães assistindo aos mesmos desenhos que viam na infância e adultos disputando videogames com o mesmo entusiasmo de décadas atrás.

Mas será que estamos diante de uma geração mais infantilizada?

A psicologia e a sociologia sugerem uma explicação mais interessante.

O surgimento da geração Kidult

Nos últimos anos, pesquisadores e profissionais de marketing passaram a utilizar o termo Kidult, uma junção das palavras inglesas kid (criança) e adult (adulto).

O conceito descreve adultos que preservam interesses, comportamentos ou formas de entretenimento tradicionalmente associados à infância.

Embora o termo seja relativamente recente, o fenômeno é bastante visível. A indústria do entretenimento percebeu que uma parcela significativa de seu público consumidor não eram crianças, mas adultos movidos pela nostalgia.

Filmes, brinquedos, jogos, colecionáveis e produtos alimentícios passaram a ser desenvolvidos especificamente para esse público.

O sucesso de franquias como Pokémon, Dragon Ball, Super Mario, Harry Potter e tantas outras demonstra que a infância deixou de ser uma fase que necessariamente fica para trás.

Ela passou a fazer parte da identidade de muitas pessoas.

Quando a infância se tornou uma cultura

Para entender esse fenômeno, precisamos olhar para a infância das décadas de 1980 e 1990.

As gerações anteriores cresceram em contextos nos quais brincar era apenas uma atividade passageira. A vida adulta chegava cedo e exigia responsabilidades precoces.

Já as crianças dos anos 80 e 90 foram as primeiras a crescer imersas em uma verdadeira cultura infantil.

Foi a era da televisão aberta dominada por programas infantis, da popularização dos videogames domésticos, dos brinquedos licenciados, dos álbuns de figurinha, das revistas em quadrinhos e do surgimento das grandes franquias globais.

Pela primeira vez, milhões de crianças compartilharam referências culturais semelhantes.

A infância deixou de ser apenas uma etapa do desenvolvimento e tornou-se uma experiência coletiva profundamente marcante.

A nostalgia como reguladora emocional

Quando observamos o fenômeno sob a ótica da psicologia, encontramos outro elemento importante: a nostalgia.

Durante muito tempo, a nostalgia foi entendida como uma forma de apego excessivo ao passado. Hoje, pesquisas mostram que ela pode desempenhar funções psicológicas adaptativas.

Recordar experiências positivas aumenta sentimentos de continuidade da identidade, pertencimento e significado existencial.

Quando um adulto compra um brinquedo que desejava na infância ou joga um videogame antigo, ele não está necessariamente tentando voltar a ser criança.

Muitas vezes, está tentando reencontrar sensações associadas à segurança, à espontaneidade e ao encantamento que marcaram aquele período da vida.

Em uma sociedade caracterizada por excesso de estímulos, incertezas econômicas e pressão constante por desempenho, essas lembranças funcionam como uma espécie de porto seguro emocional.

A vida adulta mudou

Talvez a maior diferença entre as gerações esteja na própria definição do que significa ser adulto.

Para nossos avós, a entrada na vida adulta era relativamente clara: trabalho estável, casamento, filhos e casa própria.

Hoje, esses marcos tornaram-se mais tardios ou, em alguns casos, deixaram de ser objetivos universais.

O psicólogo Jeffrey Arnett propôs o conceito de Adultescência Emergente (Emerging Adulthood) para descrever justamente esse prolongamento da transição entre adolescência e vida adulta.

Segundo ele, os jovens adultos modernos passam mais tempo explorando identidades, carreiras e relacionamentos antes de assumirem compromissos permanentes.

Em outras palavras, a própria sociedade ampliou o espaço para que aspectos juvenis coexistam com responsabilidades adultas.

A criança interior não desaparece

Outro ponto importante é a confusão entre maturidade e seriedade.

Muitas pessoas cresceram acreditando que amadurecer significava abandonar a criatividade, a espontaneidade e o prazer lúdico.

Entretanto, autores como Donald Winnicott defendem justamente o contrário.

Segundo Winnicott, a capacidade de brincar permanece fundamental durante toda a vida. É através dela que desenvolvemos criatividade, flexibilidade psicológica e vitalidade emocional.

O adulto emocionalmente saudável não elimina sua criança interior.

Ele aprende a integrá-la.

A verdadeira maturidade não está em deixar de brincar, mas em saber quando brincar e quando assumir responsabilidades.

O consumo emocional da nostalgia

O mercado percebeu rapidamente o valor econômico dessa geração.

Hoje existem versões colecionáveis de brinquedos antigos, relançamentos de videogames clássicos, turnês de bandas dos anos 80 e 90, filmes repletos de referências nostálgicas e até embalagens retrô de produtos alimentícios.

Isso não acontece por acaso.

A nostalgia tornou-se uma das emoções mais poderosas para influenciar decisões de consumo.

Ao comprar determinado produto, muitas pessoas não estão adquirindo apenas um objeto.

Estão comprando uma lembrança, uma sensação ou uma conexão com quem foram um dia.

Estamos mais infantis?

A resposta provavelmente é não.

Gostar de videogames, desenhos animados ou colecionáveis não torna alguém emocionalmente imaturo.

A maturidade é definida por características muito mais importantes: capacidade de assumir responsabilidades, tolerar frustrações, construir relacionamentos saudáveis e tomar decisões coerentes com os próprios valores.

Uma pessoa pode colecionar bonecos e ser extremamente madura.

Da mesma forma, alguém pode abandonar qualquer interesse infantil e continuar incapaz de lidar com os desafios da vida.

O problema não está nos hobbies.

Está na função que eles desempenham.

Quando servem como lazer, criatividade e prazer, enriquecem a vida. Quando se tornam uma forma de evitar responsabilidades ou escapar constantemente da realidade, merecem atenção.

Considerações finais

Talvez as gerações dos anos 80 e 90 estejam ajudando a redefinir o que significa crescer.

Em vez de abandonar completamente a criança que foram um dia, aprenderam a carregá-la consigo.

O fenômeno dos Kidults não representa necessariamente uma crise de maturidade. Em muitos casos, representa algo bastante saudável: a capacidade de preservar curiosidade, criatividade, senso de humor e prazer mesmo diante das exigências da vida adulta.

Afinal, crescer não precisa significar abandonar tudo aquilo que um dia nos trouxe alegria.

A verdadeira maturidade talvez esteja justamente em integrar a criança interior a um adulto responsável, consciente e emocionalmente equilibrado.

Bibliografia

  • ARNETT, Jeffrey Jensen. Emerging Adulthood: The Winding Road from the Late Teens Through the Twenties. Oxford University Press, 2015.
  • BAUDRILLARD, Jean. A Sociedade de Consumo. Edições 70, 2008.
  • ERIKSON, Erik H. Identidade, Juventude e Crise. Zahar, 1976.
  • HEPPER, Erica G.; RITCHIE, Timothy D.; SEDIKIDES, Constantine; WILDSCHUT, Tim. Nostalgia: Motivational, emotional, and cognitive aspects. In: Advances in Experimental Social Psychology. 2017.
  • MCCRINDLE, Mark; WOLFINGER, Emily. The ABC of XYZ: Understanding the Global Generations. UNSW Press, 2010.
  • SEDIKIDES, Constantine; WILDSCHUT, Tim. Past Forward: Nostalgia as a Motivational Force. Trends in Cognitive Sciences, 2018.
  • WINNICOTT, Donald W. O Brincar e a Realidade. Imago, 1975.

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