A série Sweetpea apresenta uma protagonista difícil de ignorar. Rhiannon Lewis é o tipo de personagem que provoca ambivalência: ao mesmo tempo em que causa repulsa por seus atos, também desperta uma estranha sensação de compreensão.
Neste artigo, faço uma análise psicológica aprofundada da personagem com base na Terapia Cognitivo-Comportamental, na Terapia do Esquema e em modelos contemporâneos de trauma e regulação emocional.
Se você se interessa por psicologia da personalidade, trauma, raiva reprimida e construção da identidade, essa leitura é para você.
Quem é Rhiannon Lewis?
Rhiannon é apresentada como uma mulher comum. Trabalha em um emprego pouco valorizado, é constantemente ignorada, subestimada e tratada com desprezo. Sua vida social é limitada. Sua história inclui bullying na infância, experiências de rejeição e perdas significativas.
Externamente, parece apagada. Internamente, acumula ressentimento.
A série, baseada no livro Sweetpea, de C. J. Skuse, constrói lentamente essa tensão até que a personagem cruza um limite moral importante.
Mas o que psicologicamente sustenta essa transformação?
Invisibilidade social e construção do autoconceito
Um dos eixos centrais da personagem é a sensação persistente de não ser vista.
Na perspectiva da Terapia Cognitiva de Aaron Beck, experiências repetidas de rejeição contribuem para a formação de crenças nucleares como:
- “Eu sou irrelevante.”
- “As pessoas não se importam comigo.”
- “Eu não tenho valor.”
Essas crenças moldam filtros cognitivos. Pequenas situações de desconsideração passam a ser interpretadas como confirmações de um padrão maior. O mundo deixa de ser neutro e passa a ser percebido como constantemente invalidante.
A Teoria da Autodeterminação, proposta por Edward Deci e Richard Ryan, aponta que três necessidades básicas sustentam o funcionamento psicológico saudável: autonomia, competência e pertencimento. Rhiannon parece cronicamente privada das três.
Quando essas necessidades são frustradas por longos períodos, o impacto não é apenas emocional. Ele é identitário.
Esquemas iniciais desadaptativos
Sob a lente da Terapia do Esquema, desenvolvida por Jeffrey Young, Rhiannon apresenta indícios claros de alguns esquemas centrais:
Defectividade/Vergonha
Sensação de ser fundamentalmente inadequada, inferior ou indesejável.
Isolamento Social
Percepção de não pertencer, de ser diferente e deslocada.
Subjugação
Tendência a se calar, evitar confronto e engolir a própria raiva para evitar rejeição.
O problema não é apenas ter esses esquemas. É a forma como eles são compensados.
Em vez de permanecer apenas na submissão, a personagem passa a desenvolver um modo compensatório agressivo. A invisibilidade dá lugar a uma busca radical por poder.
Raiva reprimida e explosão comportamental
A raiva é uma emoção legítima. O que muda tudo é como ela é regulada.
Estudos de Albert Bandura sobre aprendizagem social mostram que o comportamento é moldado por reforço. No momento em que Rhiannon experimenta sensação de poder após um ato violento, ocorre algo psicologicamente decisivo: alívio.
Esse alívio funciona como reforçador.
Na prática clínica, vemos algo semelhante em comportamentos impulsivos. A emoção intensa gera tensão. O comportamento reduz a tensão. O cérebro aprende que aquele caminho funciona.
Não é que a violência seja “natural”. É que ela passa a ser percebida como funcional dentro da lógica interna da personagem.
Trauma complexo e sensibilidade à humilhação
A história de bullying e perdas aponta para um padrão compatível com trauma relacional repetido.
Judith Herman, em seus estudos sobre trauma complexo, descreve como experiências crônicas de humilhação e invalidação podem produzir:
- Hipersensibilidade a rejeição
- Dificuldade de regulação emocional
- Oscilações entre vergonha e raiva intensa
Rhiannon não reage apenas ao presente. Ela reage ao acúmulo.
Cada nova humilhação ativa não só o evento atual, mas todo um histórico de experiências anteriores não metabolizadas emocionalmente.
Identidade, poder e moralidade
Um ponto fundamental é que, após atravessar o limite da violência, Rhiannon não demonstra apenas culpa. Ela experimenta senso de presença.
Pela primeira vez, sente-se ativa. Influente. Potente.
Esse movimento pode ser entendido como uma reorganização identitária. A identidade de “invisível” é substituída pela identidade de “quem tem controle”.
O problema é que essa reorganização ocorre por meio de um caminho destrutivo.
Aqui entra um conceito importante da TCC: distorções cognitivas de justificação moral. A personagem constrói narrativas internas que reduzem a dissonância entre seus valores anteriores e suas novas ações.
O self precisa permanecer coerente. Mesmo que essa coerência seja construída sobre racionalizações.
Rhiannon é psicopata?
Essa é uma pergunta comum.
A personagem não é retratada como alguém fria desde sempre. Sua trajetória mostra sofrimento prévio, vergonha, insegurança e necessidade de pertencimento. Isso a distancia de um perfil clássico de psicopatia primária.
O que vemos é algo mais complexo: um padrão de desregulação emocional grave associado a esquemas de desvalor e estratégias compensatórias extremas.
A série não romantiza a violência, mas provoca uma reflexão desconfortável: o que acontece quando anos de invisibilidade encontram uma oportunidade de poder?
O que Sweetpea nos ensina sobre sofrimento psicológico
Embora seja ficção, a narrativa levanta questões importantes para a clínica:
- A raiva reprimida pode se transformar em ressentimento crônico.
- Experiências repetidas de humilhação moldam crenças profundas.
- Falta de validação emocional impacta identidade e autorregulação.
- Comportamentos disfuncionais frequentemente começam como tentativas de alívio.
Na prática terapêutica, histórias como essa reforçam a importância de trabalhar:
- Crenças nucleares de desvalor
- Estratégias saudáveis de regulação emocional
- Processamento de experiências traumáticas
- Desenvolvimento de senso de identidade baseado em valores, não em reação
Considerações finais
Rhiannon Lewis é perturbadora porque carrega algo reconhecível: a dor de não ser vista.
A série Sweetpea transforma essa dor em um thriller psicológico. Mas, fora da ficção, a clínica nos mostra que o caminho possível é outro. Quando a raiva é legitimada, quando a vergonha é trabalhada e quando a identidade é reconstruída com base em valores, o sofrimento não precisa se transformar em destruição.
Bibliografia
- BECK, A. T. Terapia Cognitiva dos Transtornos Emocionais. Porto Alegre: Artmed.
- YOUNG, J. E.; KLOSKO, J. S.; WEISHAAR, M. E. Terapia do Esquema: Guia de Técnicas Cognitivo-Comportamentais Inovadoras. Porto Alegre: Artmed.
- HERMAN, J. L. Trauma e Recuperação: As Consequências da Violência – do Abuso Doméstico ao Terror Político. São Paulo: Roca.
- LINEHAN, M. M. Terapia Cognitivo-Comportamental para o Transtorno da Personalidade Borderline. Porto Alegre: Artmed.
- BANDURA, A. Teoria Social Cognitiva: Conceitos Básicos. Porto Alegre: Artmed.
- DECI, E. L.; RYAN, R. M. Teoria da Autodeterminação e Motivação Humana. (referenciado em capítulos e artigos traduzidos em coletâneas de psicologia da motivação).
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