O ghosting é um dos tipos mais angustiantes de término porque priva a vítima de qualquer possibilidade de preparo emocional. Quando um relacionamento – seja romântico, de amizade ou profissional – termina de forma abrupta e sem explicações, a pessoa deixada para trás fica perdida em um vazio de incertezas. Este artigo explora como essa falta de fechamento psicológico impacta profundamente a vítima, à luz da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), da Terapia do Esquema e da Terapia Focada na Emoção (TFE).
O impacto do rompimento súbito na vítima
Normalmente, quando um relacionamento chega ao fim, há sinais prévios: discussões, afastamento gradual ou conversas difíceis. Mesmo que a dor seja intensa, a pessoa ao menos tem a chance de se preparar emocionalmente para a separação. No ghosting, essa preparação é impossível.
A vítima não recebe nenhuma pista de que algo está errado. Um dia, tudo parece normal. No outro, a pessoa simplesmente desaparece, sem justificativas. Esse rompimento abrupto gera:
- Choque e descrença: A pessoa pode ter dificuldade em aceitar que foi abandonada sem motivo aparente.
- Ruminação excessiva: Ela tenta reconstruir os eventos, buscando explicações para o sumiço.
- Desamparo aprendido: A falta de respostas pode levá-la a sentir que não tem controle sobre seus relacionamentos.
- Medo do futuro: Ela pode se tornar hipervigilante e desconfiada, evitando novos vínculos por receio de ser abandonada novamente.
A dor do ghosting não vem apenas da rejeição, mas da falta de sentido. A mente humana busca significado para suas experiências, e o ghosting interrompe esse processo, deixando a vítima presa em um ciclo de perguntas sem respostas.
A perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental: A busca por explicações
Na TCC, compreendemos que pensamentos automáticos negativos influenciam emoções e comportamentos. Quando alguém sofre ghosting, sua mente pode gerar interpretações dolorosas, como:
- “Se fui ignorado, é porque sou insignificante.”
- “Se alguém que gostava de mim foi capaz de desaparecer, então ninguém nunca vai ficar ao meu lado.”
- “Eu não mereço respeito ou explicações.”
Esses pensamentos, muitas vezes distorcidos, intensificam o sofrimento e podem levar a sintomas de ansiedade e depressão. O objetivo da TCC é reformular essas crenças, ajudando a vítima a enxergar o ghosting como um comportamento da outra pessoa – e não como um reflexo de seu próprio valor.
Exemplo de reestruturação cognitiva:
❌ Pensamento disfuncional: “Se alguém me abandonou sem explicação, significa que eu não mereço amor.”
✅ Pensamento alternativo: “O comportamento do outro não define meu valor. Pessoas maduras comunicam seus sentimentos, e eu mereço esse respeito.”
A perspectiva da Terapia do Esquema: O ghosting reativa feridas emocionais antigas
A Terapia do Esquema nos ajuda a entender por que o ghosting pode ser especialmente doloroso para algumas pessoas. Essa experiência pode ativar esquemas emocionais formados na infância, como:
- Esquema de Abandono: Sensação de que todas as pessoas importantes sempre irão deixá-la.
- Esquema de Defectividade: Crença de que há algo de errado consigo, justificando o abandono.
- Esquema de Privação Emocional: Expectativa de que suas necessidades emocionais nunca serão atendidas.
Se uma pessoa já carrega esses esquemas, ser vítima de ghosting não apenas dói, mas confirma suas piores inseguranças. Isso pode levá-la a padrões autodestrutivos, como evitar novas conexões ou aceitar relacionamentos prejudiciais por medo de ser abandonada novamente.
A terapia do esquema ajuda a ressignificar essas feridas, promovendo uma visão mais saudável de si mesmo e dos relacionamentos.
A perspectiva da Terapia Focada na Emoção (TFE): A importância de processar a dor
A Terapia Focada na Emoção ensina que a dor do ghosting precisa ser sentida e processada. Muitas vítimas tentam ignorar o sofrimento ou se culpam por sua tristeza, o que pode torná-la ainda mais intensa.
Em vez de reprimir as emoções, a TFE incentiva:
✅ Nomear os sentimentos: “Eu me sinto rejeitado, confuso e triste.”
✅ Validar a dor: “É natural sentir isso, pois eu não tive um fechamento.”
✅ Expressar a emoção de forma saudável: Escrever sobre a experiência ou falar com alguém de confiança.
✅ Dar significado à experiência: “O ghosting não define minha dignidade. Aprendi sobre o tipo de pessoa com quem quero me relacionar.”
A TFE ensina que a cura acontece quando nos permitimos sentir, sem nos julgar por isso.
Como lidar com o ghosting e seguir em frente
Se você foi vítima de ghosting, aqui estão algumas formas de lidar com a experiência:
✅ Aceite que você nunca terá todas as respostas – E tudo bem. Nem sempre o comportamento dos outros faz sentido.
✅ Evite se culpar – O ghosting é uma escolha de quem desaparece, e não um reflexo do seu valor.
✅ Cuide de sua saúde emocional – Escreva sobre seus sentimentos, pratique o autocuidado e fortaleça laços saudáveis.
✅ Defina limites para novos relacionamentos – Se alguém mostra sinais de inconsistência, respeite seus próprios limites.
✅ Busque apoio terapêutico – Um psicólogo pode ajudá-lo a processar a dor e construir relações mais saudáveis.
Conclusão: Você merece fechamento, mesmo que o outro não o dê
O ghosting dói porque interrompe um processo natural de encerramento, deixando a vítima sem explicações e sem preparo emocional para lidar com a perda. A boa notícia é que, mesmo sem um fechamento externo, é possível construir um fechamento interno.
Se você passou por isso, lembre-se: o desaparecimento de alguém não define quem você é. Você merece respeito, clareza e relacionamentos que valorizem sua presença.
Referências
- Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Terapia cognitiva dos esquemas: Guia do terapeuta. Artmed.
- Beck, A. T. (2011). Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. Artmed.
- Greenberg, L. (2011). Emotion-focused therapy: Coaching clients to work through their feelings. American Psychological Association.
- Williams, K. D. (2007). Ostracism: The kiss of social death. Social and Personality Psychology Compass, 1(1), 236-247.
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