O feminicídio não surge de forma repentina. Ele é, na maioria das vezes, o desfecho extremo de uma escalada de violências que começa muito antes do ato fatal. Ciúmes excessivos, controle, humilhações, ameaças, isolamento social e violência psicológica costumam aparecer de forma gradual, muitas vezes normalizadas tanto pela vítima quanto pelo entorno.
No centro desse processo está um elemento psicológico central: o sentimento de posse.
Do ponto de vista clínico, é essencial diferenciar amor de posse. Amar é reconhecer o outro como sujeito, alguém com desejos, limites e autonomia. A posse, ao contrário, transforma o outro em objeto. Algo que “me pertence”, que deve corresponder às minhas expectativas emocionais e existir para regular minhas inseguranças.
Quando essa lógica é ameaçada, a violência emerge.
Posse não é afeto, é insegurança
Homens que cometem violência contra mulheres frequentemente apresentam uma identidade emocional frágil. A relação amorosa passa a ser o principal, ou único, pilar de autoestima, identidade e sensação de valor pessoal. Quando a mulher expressa desejo de separação, autonomia ou ruptura, isso não é vivido apenas como perda, mas como um colapso psíquico.
A vivência interna costuma ser radical:
“Se ela não é minha, eu não sou nada.”
Nessa lógica, a autonomia feminina é percebida como afronta, humilhação ou traição. O feminicídio, nesses casos, não é motivado por amor, mas por desespero, controle e incapacidade de lidar com frustração e perda.
Esse funcionamento é reforçado por uma cultura que historicamente ensinou homens a se sentirem donos do corpo, do comportamento e da sexualidade das mulheres, confundindo vínculo afetivo com domínio.
Ciúme patológico e a ilusão do controle
O ciúme, em sua forma saudável, pode sinalizar medo de perda. Em sua forma patológica, torna-se um mecanismo de controle. O agressor passa a vigiar roupas, amizades, redes sociais, horários e comportamentos, frequentemente justificando esse controle como cuidado ou proteção.
Psicologicamente, controlar o outro é uma tentativa de reduzir a própria ansiedade interna. O agressor não consegue regular emoções como medo de abandono, vergonha, inferioridade ou insegurança, e tenta fazê-lo por meio da vigilância e da imposição de limites externos.
Quanto mais o controle falha, mais a violência tende a escalar.
Masculinidade, raiva e analfabetismo emocional
Outro fator central é a dificuldade de muitos homens em lidar com emoções vulneráveis. Tristeza, rejeição, medo e frustração são emoções frequentemente proibidas no aprendizado social do masculino. A raiva, por outro lado, é permitida.
Assim, emoções vulneráveis são convertidas em agressividade.
Quando essa raiva se combina a crenças rígidas como “fui desrespeitado”, “perdi o controle” ou “minha autoridade foi ameaçada”, a violência surge como tentativa de restauração de poder e identidade. O feminicídio, nesse contexto, não é um “crime passional”, mas um ato de dominação extrema.
A violência como processo, não como evento isolado
Raramente o feminicídio acontece sem sinais prévios. Ele costuma ser precedido por:
- Violência psicológica e moral
- Ameaças explícitas ou veladas
- Violência patrimonial
- Violência física progressiva
- Isolamento social da vítima
Cada episódio reforça a assimetria de poder na relação e aumenta o risco de desfechos fatais, especialmente quando a mulher tenta romper o vínculo.
Por que algumas mulheres acabam se colocando repetidamente nesse lugar?
Falar sobre padrões relacionais não é falar de culpa. É falar de compreensão e possibilidade de mudança. Muitas mulheres não escolhem conscientemente relações abusivas, mas acabam permanecendo nelas por conta de histórias emocionais anteriores que moldaram sua noção de amor, valor pessoal e limites.
Em psicologia, sabemos que tendemos a nos vincular ao que é familiar emocionalmente, mesmo quando isso é doloroso. Para quem cresceu em contextos de negligência, instabilidade, abandono ou amor condicionado, relações marcadas por controle e sofrimento podem parecer reconhecíveis.
Nesses casos, o afeto se confunde com esforço, sacrifício e tolerância.
Esquemas emocionais e repetição do sofrimento
Na clínica, especialmente a partir da terapia do esquema, observamos com frequência a ativação de esquemas como:
- Privação emocional, quando a pessoa aprendeu que suas necessidades não serão atendidas.
- Subjugação, quando aprendeu a se anular para evitar conflitos ou abandono.
- Defectividade/vergonha, quando acredita que precisa compensar algo “errado” em si para ser amada.
- Abandono, quando o medo da solidão sustenta relações insustentáveis.
Esses esquemas não causam a violência, mas aumentam a vulnerabilidade à sua permanência, dificultando a percepção de sinais de alerta e a saída da relação.
A fantasia de salvar o outro
Outro elemento frequente é a crença de que o amor pode curar o agressor. Muitas mulheres assumem o papel de cuidadoras emocionais, acreditando que, com paciência e compreensão, o parceiro irá mudar.
Essa fantasia é perigosa. Ela desloca a responsabilidade da violência para quem sofre e reforça a assimetria da relação. Violência não se resolve com amor. Se resolve com responsabilização, limites claros e intervenção adequada.
Reconhecer padrões não é se culpar, é se libertar
Compreender por que certos comportamentos foram tolerados não significa assumir culpa pela violência sofrida. Significa recuperar poder de escolha. Quando a pessoa entende o que dentro dela aprendeu que aquilo era amor, abre-se espaço para construir vínculos diferentes.
A pergunta terapêutica deixa de ser “por que isso acontece comigo?” e passa a ser “o que eu aprendi sobre amor que preciso revisar?”.
Esse deslocamento é profundamente libertador.
Autonomia emocional como fator de proteção
Quanto maior a autonomia emocional, menor a tolerância à violência. Desenvolver consciência emocional, fortalecer autoestima, aprender a estabelecer limites e reconhecer sinais precoces de abuso são fatores fundamentais de proteção.
Prevenir o feminicídio exige mais do que punição legal. Exige educação emocional, revisão dos modelos de masculinidade, acesso à saúde mental e uma cultura que não romantize ciúme, posse e controle.
Feminicídio não é excesso de amor. É violência sustentada por insegurança, crenças distorcidas e uma estrutura social que ainda confunde domínio com afeto.
Bibliografia
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